Rádio Rural AM 840

OPINIÃO

LUAN DE BORTOLI




​Sobre encontrar e não encontrar culpados

Dois fatos chamam a atenção neste aspecto: a pandemia do coronavírus e a morte de George Floyd.
Adicionado em 05/06/2020 às 10:38:36

Dois fatos recentes me fizeram refletir e perceber certa similaridade entre si, não pela forma, mas pelo que os envolve. Primeiro é a insistência da população em culpar A ou B pela pandemia e pelas consequências – seja na economia, seja nas mortes. O segundo é a morte de um homem negro por um policial branco e a necessidade sim de achar culpados. 

Começo pela pandemia. É comum abrir as redes sociais e encontrar, se não textões, pelo menos comentários sobre a culpa da disseminação da doença ou da crise gerada por ela, ou quem é mais responsável pela contaminação, empresa A ou setor B. 
A questão é: todos nós somos responsáveis pelo que estamos vivendo. Mas a questão também é que não é momento para culpar. É hora de ainda nos cuidarmos.

Em Concórdia, a briga é para saber onde há mais contaminados: agroindústria ou demais setores. Não se trata disso, a pandemia vai muito além. Ela atinge e mata pessoas. Independente de onde quer que elas estejam. Se o município tem vários casos é porque não nos cuidamos o suficiente. 

O momento agora é apenas esse: disseminar a ideia de proteção. Caso contrário, vamos gastar nossa força em dobro para falar dos cuidados e para achar culpados. Ficar apontando os dedos nas redes sociais é desgastante. 

E o principal fato da semana em nível mundial é a morte de um homem negro por um policial branco nos Estados Unidos. Falar de racismo é sempre um terreno difícil. Há um fato concreto. O racismo existe. As pessoas são racistas. Discutir o assunto não é “mimimi”. 

George Floyd morreu após ser rendido por um policial. Morreu por ter sido ACUSADO de ter feito compras com um cartão falso. Morreu sem estar armado. Morreu pedindo ajuda pois não conseguia mais respirar enquanto o policial branco de retrospecto racista prendia o pescoço dele com o joelho contra o asfalto.

Floyd morreu como tantos outros negros em todo o mundo, de forma injusta. Sim, morreu por ser negro. Pela preconcepção de que a cor da pele indica a índole. Ao longo das décadas, vários fatos parecidos foram registrados. Mas isso só ocorreu porque, com sorte, teve quem registrasse. Agora, quantos outros casos semelhantes não são expostos à luz do dia?

Aqui, sim. Aqui é preciso encontrar os culpados. Que somos todos nós. Enquanto racistas. Enquanto toleráveis. Enquanto normalizadores de uma situação que não pode continuar. Enquanto a vida negra não tiver o mesmo valor do que a do branco, não adianta dizer que todas as vidas são iguais e importam. Esse discurso não convence mais. 

Lamenta-se que seja necessário um negro morrer para que o assunto volte a tona. Quantos outros ainda precisam passar pelo mesmo para que o tema seja debatido? Porque, sim, é só falando e expondo que haverá uma evolução. Mas eu, sinceramente, não gostaria que fosse necessário alguém pagar com a vida para que isso aconteça. 

Então, já que aconteceu, que não tenha ocorrido em vão. Que essa vida valha e valha por todas as outras que ficaram.





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