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Tragédia em Chapecó

Especial: um mês da tragédia com o voo da Chapecoense na Colômbia

Equipe começa a reconstrução do time.

Por Luan de Bortoli
29/12/2016 às 07h57

00h55 da madrugada do dia 29 de novembro de 2016. O avião CP-2933 da empresa venezuelana LaMia perde contato com a torre de comando próximo ao aeroporto de Rio Negro, na Colômbia. Dentro da aeronave estão 68 passageiros e 9 tripulantes com destino a Medellín, onde a Chapecoense enfrentaria o Atlético Nacional no primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana. O jogo não aconteceu. O time não chegou ao destino final. A história ganhou um novo capítulo - e triste - a partir daquele momento. 

A primeira informação era de que o avião havia feito um pouso forçado próximo ao aeroporto de Medellín. A esperança era de que não houvesse vítimas. Logo veio a notícia de que o avião havia caído em um local de difícil acesso, o que dificultava a aproximação das equipes de resgate. Outro agravante era o mau tempo na região e a baixa temperatura durante a madrugada. Dois helicópteros da força aérea do país sobrevoaram a área para auxiliar no trabalho. O cenário era devastador.

Devastador também era a espera por notícias no Brasil. Em Chapecó, os torcedores custavam a acreditar. Muitos se deslocaram para a Arena Condá em busca de informações. E a primeira já era trazia uma mistura de sentimentos, a tristeza e a esperança: ao menos 25 pessoas mortas e o lateral Alan Ruschel, o goleiro Danilo e uma comissária de bordo entre os sobreviventes. 

Horas depois veio a confirmação de que apenas seis pessoas resistiram ao acidente: os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, o jornalista Rafael Henzel, e os tripulantes Erwin Tumiri e Ximena Suarez. As buscas por sobreviventes também estavam encerradas. 

O acidente teve 71 vítimas no total: 19 jogadores, 20 jornalistas, 14 integrantes da comissão técnica, nove dirigentes, dois convidados e sete tripulantes.
A lista de passageiros ainda mostrava o nome de quatro pessoas que não embarcaram com o time para a Colômbia: Luciano Buligon, prefeito de Chapecó, Plínio David de Nês Filho, presidente do Conselho Deliberativo da Chape (e atual presidente), Ivan Carlos Agnoletto, narrador da rádio Super Condá, e Gelson Merisio, presidente da Assembléia Legislativa de Santa Catarina.

O silêncio tomou conta de Chapecó. Na rua, em meio às tarefas diárias, os habitantes da cidade com pouco mais de 200 mil habitantes tinham o luto e a tristeza estampados em seus rostos. Uma troca de olhares entre as pessoas era suficiente para saber que o sentimento era recíproco. Não foi raro ver olhos marejados nos dias que se seguiram ao acidente.

Solidariedade

Curiosamente, o avião da Chape se acidentou em uma colina pertencente à cidade de La Unión, que em tradução livre do espanhol significa “A União”. De fato, o acidente causou comoção e união em todo o mundo. Diversos clubes fizeram um minuto de silêncio antes de suas partidas e estamparam o brasão da Chapecoense em seus uniformes. Monumentos também ganharam a cor verde do clube de Santa Catarina. As redes sociais se encheram de gestos e palavras de solidariedade. O mundo ficou verde e branco.

Em meio a solidariedade e apoio dos clubes do mundo inteiro, um convite para participar do Troféu Joan Gamper em 2017. A atitude partiu do Barcelona, que afirmou querer estreitar laços com o clube do Oeste de Santa Catarina. Na mesma linha solidária, o xeque Hamad Bin Khalifa Bin Ahmad Al Thani, do Catar, convidou a equipe sub-17 alviverde para um torneio no ano que vem.

O Atlético Nacional e o povo colombiano proporcionaram uma das cenas mais comoventes diante de toda a tragédia ao lotar o estádio e as ruas ao redor no momento em que seria realizada a partida. Concomitantemente, a Arena Condá também recebia seus fieis. Na semana seguinte, no Couto Pereira, mais homenagem, agora no local reservado para o jogo de volta - a casa da Chape estava vetada pela capacidade insuficiente para uma decisão. Na final da Copa do Brasil, minuto de silêncio também tocou o coração dos brasileiros. 


Espera dos corpos

Foram cinco dias de espera desde o acidente em Medellín até a chegada das vítimas a Chapecó. Uma equipe de médicos e psicólogos permaneceu diariamente na Arena Condá para dar suporte aos familiares dos envolvidos na queda e que aguardavam com ansiedade a chegada de seus entes.  

A solidariedade das autoridades colombianas, a participação do prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, e a comitiva de médicos e advogados enviada pela Chapecoense à Colômbia foram decisivas para que a liberação dos corpos acontecessem o mais rápido possível.   

Velório coletivo

Os corpos dos mortos na tragédia em Medellín chegaram a Chapecó apenas no dia 3. Um velório coletivo havia sido marcado inicialmente para a sexta-feira, na Arena Condá, mas a logística para o deslocamento dos corpos impediu o cumprimento da data. 

O velório, sob forte chuva, reuniu grandes personalidades do futebol, como o técnico da seleção brasileira, Tite, e os ex-jogadores Puyol e Seedorf. O presidente Michel Temer também participou do ato, mas preferiu não se pronunciar. Temer ainda se envolveu em polêmica ao noticiar, em um primeiro momento, que ele não estaria presente na Arena.

Recuperação dos sobreviventes

Dos quatro sobreviventes brasileiros, o caso que mais preocupava inicialmente era o do zagueiro Neto, último a ser resgatado com vida do acidente. O goleiro Follmann já tinha uma perna amputada e corria o risco de perder a outra. O jornalista Rafael Henzel apresentava múltiplas fraturas em costelas e tinha um quadro de pneumonia para ser revertido. Enquanto isso, o lateral-esquerdo Alan Ruschel, o primeiro sobrevivente a ser resgatado, apresentava rápida melhora. 

Os quadros clínicos delicados fizeram os atletas permanecerem internados na Colômbia por duas semanas até terem condições de retornar.


Reconstrução 

A Chapecoense tinha eleições marcadas para o dia 14 de dezembro e teria Sandro Pallaoro como candidato único. O presidente que deu tanto orgulho à torcida iria continuar no posto para seguir com o bom trabalho feito desde 2011. No entanto, Pallaoro, assim como outros integrantes da chapa, morreu no acidente aéreo na Colômbia. Ficou nas mãos de Plínio David de Nês Filho, o Maninho, a missão de liderar a reconstrução da Chape. O dirigente foi eleito presidente por aclamação dois dias após a data prevista.

Maninho era o presidente do Conselho Deliberativo da Chapecoense e estava na lista de passageiros do voo da LaMia, mas ficou em São Paulo a pedido do prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, que também deixou de viajar à Colômbia com o avião CP-2933.

Uma semana antes das eleições, o clube havia anunciado os integrantes da diretoria de futebol, os responsáveis diretos pela reconstrução de um time que perdeu as principais peças no trágico acidente. João Carlos Maringá voltou ao Verdão para ser o diretor de futebol e trabalhar ao lado de Rui Costa, diretor executivo. Junto, Nivaldo Constante se aposentou dos gramados para ser o gerente de futebol. No mesmo período, a diretoria havia anunciado o treinador Vagner Mancini.

- Eu atuava em conjunto e sabia dos planos do Pallaoro, porque eram os planos da Chapecoense. Mas não é fácil (a missão de liderar a reconstrução da Chape). Já que ficamos, temos uma missão a cumprir e vamos fazer com dignidade e trabalho - contou o novo presidente no GloboEsporte.com.

Reforços

Apesar das especulações sobre os possíveis reforços da Chapecoense, os primeiros nomes só foram confirmados pela diretoria no dia 23 de dezembro. O goleiro Elias, que estava no Juventude, o zagueiro Douglas Grolli, do Cruzeiro, o meia Dodô, emprestado pelo Atlético-MG, e o atacante Rossi, que defendeu o Goiás na Série B do Campeonato Brasileiro, foram as primeira peças de um time que está sendo reconstruído.

Além destes atletas que já foram confirmados, há uma lista de atletas ainda não confirmadas pelo clube: o Grêmio vai ceder o volante Moisés, enquanto o Fluminense encaminha o empréstimo do atacante Wellington Paulista. Henrique Dourado, também do Flu, foi sondado pelo Verdão, assim como o meia Daniel, do São Paulo. Do Tricolor paulista, o lateral esquerdo Reinaldo, que atuou na Ponte em 2016, é nome certo no Oeste. Do Uruguai chega o lateral-direito Emilio Zeballos, que estava no Defensor. Niltinho, ex-Criciúma, é mais um nome próximo de ser confirmado. Aos poucos, a Chapecoense vai ganhando forma, a torcida deposita mais confiança, e a tragédia ficando apenas na lembrança junto do sentimento de saudade.

Sul-americana e Libertadores

No mesmo dia da tragédia, o Atlético Nacional, adversário da Chapecoense na final da Copa Sul-Americana, emitiu um comunicado solicitando à Conmebol que o título fosse entregue ao time catarinense. 

A Conmebol confirmou que o título seria mesmo da Chapecoense no dia 5, assegurando assim que o clube verde e branco estaria na Libertadores da América de 2017. A taça da copa foi entregue a Maninho em Assunção, no Paraguai, justamente no dia do sorteio dos grupos da maior competição continental. 

Em sua primeira participação, o clube catarinense ficou no grupo 7 e terá pela frente o Nacional do Uruguai, Lanús, da Argentina e Zulia, da Venezuela - o Verdão estreia em 7 de março contra o time venezuelano. 

Próximos passos

Enquanto tenta superar a dor da perda, a Chapecoense também começa o planejamento para a temporada de 2017. Com a participação na Libertadores definida, a Chape fará pelo menos 70 partidas no ano. Serão 38 jogos pelo Campeonato Brasileiro, 18 pelo Estadual, seis pela fase de grupos da Copa Libertadores, três pela fase de grupos da Primeira Liga, dois pelas oitavas da Copa do Brasil, dois pela Recopa Sul-Americana e um pela Copa Suruga, totalizando 7 competições diferentes.

Investigação

A poucos dias de completar um mês do acidente, as autoridades colombianas responsáveis pela investigação do acidente explicaram preliminarmente as causas da queda. De acordo com a Aeronáutica Civil, o avião da LaMia viajava com cerca de 500 kg a mais do que o normal. Além disso, o plano de vôo autorizado pela AASANA (Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea da Bolívia) era irregular, pois deixou de levar em consideração que o tempo de viagem era igual à autonomia de voo.

Chuva

Na noite do acidente foram registrados pontos de alagamento no município catarinense. Em La Unión, a chuva também insistia em cair sobre os destroços do avião. Foi na molhada pista do aeroporto Serafim Enoss Bertaso que os corpos dos heróis verde e branco aterrissaram finalmente. Quando entraram em campo pela última vez, a chuva também mostrou sua cara, se transformou em temporal e encharcou o gramado da Arena Condá. As pessoas não choram sozinhas, o céu lhes acompanha. O sol voltará a brilhar forte, mas em breve, pois o mundo ainda está de luto.

A ficha não caiu

O trágico acidente deixou marcas profundas em todo o mundo, mas, principalmente, nas pessoas que perderam familiares. Passado um mês da queda do avião, algumas pessoas ainda tentam entender. Se para os torcedores já é difícil, imagina quem tinha um contato ainda mais próximo.

- Não caiu bem a ficha. Quem sabe aos poucos. O tempo vai passando, e a gente consiga entender. Estou morando na casa do empresário do Dener em Porto Alegre. Estão me tratando como uma família aqui - afirmou Amanda Machado, viúva do lateral-esquerdo.

Fonte: Globo Esporte.com





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