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Estiagem em Concórdia: suinocultor reduz o plantel e agricultor tem 50% de perdas nas lavouras

A prefeitura segue transportando água, mas ajuda chega com atraso por conta da demanda.

Por Luan de Bortoli
12/03/2020 às 06h29 | Atualizada em 13/03/2020 - 14h23


Dando continuidade às reportagens especiais sobre a situação da seca que atinge Concórdia, desta vez o jornalismo da Rural e da 96 ouviu depoimento de agricultores, que são aquelas pessoas mais afetadas pelo problema. Tanto é que, como medida para evitar ainda mais perdas, a criação já está sendo reduzida. A única forma de terem continuidade na atividade é a ajuda com o transporte de água feito pela prefeitura.

Desde o fim do ano passado, a administração municipal de Concórdia realiza, diariamente, a entrega de água para diversas propriedades do interior do município. As localidades que mais têm precisado de ajuda são KM 11, Cachimbo, Planalto, Presidente Juscelino e Lajeado dos Pintos. Outras comunidades também recebem o apoio. O uso da água é, quase sempre, para o consumo de animais. No entanto, há casos isolados em que falta água até para o consumo humano. 

A média diária tem oscilado. Em alguns momentos, eram até cinco cargas por dia. Mas, recentemente, com o aumento da escassez de chuva no município, o número dobrou. Já são cerca de dez transportes diários. Dois caminhões fazem o serviço – um, levando 12 mil litros, outro 10 mil. São, por dia, cerca de 200 mil litros de água. Mas este número ainda é insuficiente para ajudar as propriedades. 

Ajuda com atraso

Produtor do setor de suínos, Oraldo Martelli, de Cachimbo, é uma dessas pessoas que sente na pele o problema. Segundo ele, é uma das maiores estiagens que já viu. Conforme Martelli, a seca é tão grande e atinge tantas propriedades, que os pedidos de ajuda com água têm passado por atraso. À reportagem, ele contou que muitas vezes, há demora para receber o apoio, mas entende que não é culpa da administração, e sim pela demanda.

“Estamos com apoio dos bombeiros, das prefeituras, fornecendo água para nós. Mas o problema a gente vê que cada dia se agrava mais. Como a estiagem está geral, muita solicitação vem até a prefeitura, e nós temos esta dificuldade que o fornecimento de água atrasa. E atrasando, lá dentro da propriedade, para manter os animais fica difícil. A gente entende o lado da prefeitura, que estão empenhados, até no feriado”.

Por conta disso, Martelli relata que diversas consequências são sentidas. A propriedade em que atua possui hoje cerca de 170 suínos, um número inferior a alguns meses atrás. A quantidade diminuiu em média 20% recentemente por conta da falta de água. Esta foi a saída para que eles conseguissem lidar com o problema da estiagem, conforme destaca o suinocultor.

“A gente tá tentando diminuir o número de animais em função deste problema. Então, a cada dia parece que o problema se torna mais sério, e a gente não vê uma solução logo, porque também dependemos das chuvas. E não é uma chuva pouca. Hoje, para nós retomarmos a quantidade de água, precisa chover muito. Mortalidade não chegou a ter, mas os animais ficam sem água e vão ter problema no desempenho, na própria sanidade, as instalações você não consegue fazer aquele manejo diário ou semanal”.

Prejuízos

Na comunidade de Cachimbo, há um poço comunitário. No entanto, ele não está sendo suficiente para ajudar toda a comunidade. A preocupação também é grande em função da qualidade genética do plantel. Os prejuízos, apesar de ainda não mensurados, já são enormes, segundo Martelli.

“A nossa granja produz material genético, então fica mais complicado, porque temos animais que exigem mais cuidados, por serem animais reprodutores. E desde o ano passado temos um posso comunitário, que vem dificultando também, porque a produção de água tá cada vez maior. E a prioridade é para o consumo humano. Aí o prejuízo é grande. Não consigo mensurar em números, mas a produção do que tá saindo é menor, a qualidade dos animais não é aquela”.

Parar com a atividade temporariamente enquanto não há chuva suficiente não é uma opção. Martelli explica que os produtores não cogitam isso no momento, pois interromper o trabalho vai resultar em grandes perdas de uma atividade já realizada há 50 anos. 

Metade da produção perdida

Mas o problema não está restrito à pecuária concordiense. As perdas causadas pela falta de chuva atingem também os produtores na agricultura em geral. Juvelino Galvão trabalha com pastagens, milho e produção de leite. Todas estas atividades foram afetadas fortemente. Na lavoura, conforme o agricultor, as perdas são de cerca de 50%.

“Tá atrapalhando bastante, né? Pastagem não tem mais quase. A grama, que seria o nosso forte, de fazer feno, nós, em vez de cortar quatro vezes, cortamos um, e o milho também, de 25 a 35% já perdemos. [a pastagem] foi perdida, e algumas que a gente plantou não estão nascendo também”.

Galvão conta que ainda não calculou a dimensão dos prejuízos financeiros, mas eles existem. Ainda segundo ele disse à nossa reportagem, o problema da seca que ocorre com as pastagens atinge também os animais e a produção do leite, que acabam tem a qualidade afetada.

“Estamos colhendo e dando no cocho para as vacas, já é um custo a mais. A pastagem é de má qualidade, e o gado de leite precisa ser alimentado com qualidade [e acaba afetando o leite]. Até agora a gente não entrou nestes detalhes [dos prejuízos financeiros] porque é só pra se incomodar mais ainda”.

Conforme a reportagem publicada ontem pelo jornalismo da emissora, a chuva de 2020, até agora, é uma das mais fracas da década. Janeiro e fevereiro deste ano estão 30% mais seco do que a média. O mês de março também entra para o dado negativo de escassez pois é o único que nunca registrou chuva, em dez anos, nos dez primeiros dias do mês. 






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