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Concórdia

Representante de entidade de Concórdia explica sobre doces deixados em parque infantil

Professora Cláudia Lucena faz uma análise dos doces e brinquedos no bairro Santa Cruz.

Por Ederson Vilas Boas
01/10/2020 às 06h42 | Atualizada em 02/10/2020 - 10h10

Nesta semana a Rádio Rural/96 publicou uma matéria sobre objetos localizados por uma criança em um parque infantil, localizado no bairro Santa Cruz. O pai tirou fotos e encaminhou para a Rádio Rural citando que os objetos deixados poderiam fazer mal para alguma criança.
A professora Cláudia Lucena, da Oscip Niara, de Concórdia, entrou em contato com a emissora, pedindo direito de resposta, para explicar o que significam os doces deixados na praça daquele bairro. A direção da Rádio Rural, aceitou o pedido da entidade e a manifestação da Oscip Niara e está publicando o texto feito pela professora Cláudia. Confira as explicações na íntegra:
 

"Como representante da Oscip Niara (Organização negra não governamental), eu, Claudia Lucena; professora, membro suplente do Conselho Municipal de Cultura de Concórdia, área de Culturas Étnicas e Folclore e integrante do grupo Coletivo Cidadania, venho por meio deste, apresentar nosso direito de resposta a respeito do que foi publicado no dia 29/09, sobre uma manifestação religiosa de matriz africana. 
Para contribuir com o debate, a reflexão do assunto, nada melhor que historiadores, pesquisadores, praticantes e fontes confiáveis para esclarecer os fatos noticiados.

Agradeço as professoras Mestre Noeli Woloszyn pela colaboração, prof. Luiziane (historiadora e umbandista) pela reflexão e a prof. Mestre Doutoranda Alloma Modzelewski, aos colegas do Coletivo Cidadania, entre outros, que manifestaram sua indignação com a notícia".


Por Alloma Modzelewski (mestre em história pela Universidade Federal do Paraná) e Luiziane Baroni (historiadora e umbandista)

O Brasil tem grande influência da África, de onde grande quantidade de africanos que foram trazidos, entre os séculos XVI e XIX, para serem mão de obra escravizada. Essas pessoas vinham de diferentes regiões do continente africano, com culturas, linguagens e práticas religiosas diversas. Ao chegarem no Brasil, eram batizados na religião católica, obrigados pelos seus senhores a abandonar suas práticas em favor daquelas praticadas pelos europeus. 

Assim, para manter suas tradições, os africanos passaram a associar seus Orixás (deuses) com os santos da religião católica, para que, quando rezassem a determinado santo, estivessem também prestando suas homenagens aos deuses africanos. Dessa forma, a religião da Umbanda é criada, com o sincretismo (união) das religiões católicas, espiritismo e as diferentes religiões do continente africano. 

A palavra Umbanda refere-se ao ato de curar, curandeiro; e esse é justamente o principal objetivo dessa religião, trazer a cura física ou espiritual, fazer a caridade. Nada tem da temida “macumba”, termo pejorativo utilizado para englobar qualquer prática de matriz africana (umbanda, candomblé, batuque...). Macumba, que aliás é um instrumento de percussão muito utilizado pelos africanos em seus ritos, é também uma arvore nativa do continente africano. 

Nossa religião foi criada no ano de 1908 no Rio de Janeiro e rapidamente se espalhou por todo o país, variando alguns aspectos rituais dependendo dos ensinamentos passados por cada sacerdote (pais e mães de santo). Não é, como afirmou a reportagem, algo praticado antigamente, menos frequente na atualidade. Pelo contrário, as religiões de matriz africana estão cada vez mais populares e ganhando espaço na sociedade. Acreditamos em um Deus maior, cultuamos os santos católicos, os orixás e as entidades espirituais (caboclos, pretos-velhos, erês-cosmes, exus e pombagiras, entre outras). 

Cada um dos santos, orixás e entidades tem formas diferenciadas de culto, possuem ligação com algum ponto da natureza. A Orixá Iemanjá, por exemplo, na religião católica é representada por Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora das Candeias (entre outras), seu ponto de força na natureza é o mar, por isso é comum no litoral a cada fim de ano entregar flores ao mar, pular sete ondas, pois essa é uma das formas de homenageá-la.

Respondendo a reportagem veiculada nessa semana, é comum sim fazermos oferendas em praças e parques, afinal é esse o ponto de força dos Orixás Ibejis, das entidades crianças. As encruzilhadas são ponto de forças de outras entidades (exus e pombagiras), os “despachos”, também citados na reportagem, nada mais são do que as OFERENDAS para as entidades exu e pombagiras. Da mesma forma, como as matas são pontos de força dos caboclos, entre outros. A natureza é o principal local de encontro com nossos santos e entidades, é nela que percebemos com maior clareza a presença de nossos protetores. Certamente, vai do bom senso de cada um dos praticantes da religião, reconhecerem que a natureza é o ponto de força de nossos santos e entidades, não deve ser poluída. Por isso mesmo, ao terminar o período de resposta da entidade ou santo, vamos ao local em que foi entregue a oferenda, recolhemos e descartamos nos locais apropriados. 

No dia 27/09 a Igreja Católica comemorava o dia de Cosme e Damião, para os umbandistas era comemorado o dia dos Erês, também chamados de Cosmes. Que melhor forma de homenagear nossos queridos Cosmes do que entregar doces e brinquedos para aquelas crianças carentes, afinal a umbanda é caridade. Infelizmente nesse ano não foi possível, em virtude da pandemia, por questões sanitárias, evitamos fazer entregas de doces e brinquedos pela cidade, porém não deixamos de homenagear nossas entidades. 

Seja dentro do centro religioso, frente ao altar, seja nas matas, ou em praças, entregamos nossas oferendas com doces e brinquedos, agradecendo aos Cosmes pela alegria, pela proteção e saúde das crianças. Obviamente que por estarem ao ar livre, os alimentos entregues como oferenda não devem ser consumidos, não vai fazer mal a ninguém pelo fato de ser uma oferenda, pode fazer mal simplesmente por estar em contato com o chão, com a poeira, exposto ao sol e a animais que perambulam pelas ruas. Somos ensinados desde pequenos a não colocar na boca algo que foi recolhido do chão, por que começaríamos agora? Porque não ensinamos nossas crianças que não se deve ingerir nada recolhido do chão?

No Brasil, sãos as religiões de origem judaico-cristã que contém a soberania numérica de fiéis. Contudo, são os adeptos de religiões de matriz africana os que mais sofrem maiores ataques discriminatórios. De acordo com o balanço publicado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, e que diz respeito às denúncias realizadas por meio do Disque 100 – canal de atendimento para denunciar violações de direitos humanos – desde 2015, as religiões de matrizes africanas somam a maioria no número de denúncias feitas por discriminação religiosa. 

Mas, o que faz com que essas manifestações religiosas sejam vítimas de ataques? O que provoca esse efeito discriminatório? Isso de acordo com Wanderson Flor do Nascimento, professor do departamento de filosofia da Universidade de Brasília, é fruto de uma tentativa de apagamento de expressões culturais que possuem a influência dos negros escravizados.

Por isso, a intolerância religiosa é tida por Flor do Nascimento, como uma manifestação do racismo, o que ele chamou de “racismo religioso”, esse ataque nada mais é que uma forma de silenciar e oprimir a expressão de identidade de um certo grupo por outro.  E isso não ocorre somente partindo da violência física, na sua forma mais bruta com a destruição de espaços voltados a práticas afro-brasileiras, mas também quando se quer ocultar tais práticas da visualidade pública, caso que foi evidenciado na cidade nessa semana. O historiador e filósofo camaronês Achille Mbembe é muito claro com relação a essa tradição do apagamento, é uma prática que rechaça a cultura que vem do negro, que quer enxotar e/ou camuflar sua expressão para que não seja vista. Assim, a soberania se exprime no fato do que se escolhe não ver e nem ouvir, e quando isso não é possível “é preciso fazê-lo calar-se”.

Enquanto praticante da religião, entendo que existe muita desinformação, muito preconceito acerca de nossas práticas religiosas e que, por isso, muitos ainda preferem se calar, para não sofrerem ainda mais com a intolerância. Mas acredito que justamente por esse motivo é importante virmos a público, exigir nosso direito a liberdade religiosa, evitar que discursos discriminatórios continuem acontecendo. Afinal de contas, intolerância religiosa é crime, e nós umbandistas não ficaremos mais calados diante desse tipo de situação.

 






02 COMENTÁRIOS - Deixe também o seu Comentário



Robmara Graciela Vieira comentou em 01/10/2020 as 11:55:55
Obrigada por nos representar! Saravá!



Robmara Graciela Vieira comentou em 01/10/2020 as 11:59:23
Obrigada por nos representar tão bem Professora. Está na hora de acabar com este preconceito tolo. Saravá a todos! E muito Axé!




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