Rádio Rural

OPINIÃO

LUCAS VILLIGER




​Drogas: Um pequeno passo para a escuridão

A dependência química atinge milhares de famílias no Brasil, sendo um caminho curto para o vício e uma longa estrada para a recuperação.
Adicionado em 27/01/2022 às 08:40:01

A notícia que usei para abrir o debate desse tema, que mexe com tantas famílias no Brasil e no mundo, é chocante. Publicada pelo G1 no inverno de 2021, vemos uma clara falência de todos os sentidos de uma pessoa, que ocasionou na capacidade de vender seu próprio bebê (um mês de idade) por míseros R$ 200,00. Tudo isso para sustentar seu vício nas drogas. A venda, segundo a polícia, aconteceu no ano de 2020, no Rio de Janeiro. 

Em nosso país, notícias relatando crimes absurdos relacionados ao vício em drogas ilícitas são vistas em grandes números. Além desse caso que vimos acima, há situações onde há agressão e roubo dos próprios familiares, pessoas que vendem todos os bens de sua casa para manter o vício, como também cometem crimes hediondos devido aos efeitos das drogas.

No artigo de hoje, convidamos o supervisor geral da Comunidade Terapêutica Chico Xavier, Robson Friedrich, da cidade de São Borja, Rio Grande do Sul. Robson tem mais de sete anos de experiência com dependência química, no atendimento a familiares e acolhidos, como também na gestão da instituição, que não tem fins lucrativos.

A instituição propõe fortalecer a convivência entre os pares, com o objetivo que os acolhidos tenham a oportunidade de mudarem suas atitudes e seus hábitos, através de um Programa Terapêutico de Acolhimento. Neste Programa estão descritas todas as atividades do dia a dia da instituição, os grupos terapêuticos oferecidos e o cronograma de atividades gerais. Todo acolhimento na instituição acontece de forma voluntária, sendo vedado pela Legislação atender pacientes de maneira compulsória.

O caminho das trevas

A porta de entrada para o mundo das drogas geralmente é uma “roleta-russa” para cada indivíduo, podendo ter efeitos diferentes em cada organismo. Estudos revelam que a maconha não é a principal porta de entrada para o nebuloso e incerto mundo das drogas. Porém, Robson relata que a substância é uma das grandes responsáveis pelo “pontapé inicial” rumo a dependência química. 

“Na minha experiência do cotidiano da instituição, observamos que a esmagadora maioria iniciou o seu uso com drogas ‘mais leves’, como a maconha e o álcool. As drogas podem causar a dependência logo no primeiro uso, ou trazer os efeitos nocivos após anos de uso”, relata Robson. 

Muitas vezes, o primeiro contato com as drogas acontece na juventude, em alguns casos inclusive na infância e adolescência. Somente proibir o uso não é a melhor estratégia para evitar o consumo, mas sim realizar diversas conversas com os jovens sobre o assunto, fazendo um trabalho de prevenção. 

“Apenas com prevenção e conscientização conseguiremos explicar aos jovens os malefícios que as drogas podem trazer para sua saúde e vida em geral. Importante manter o diálogo de forma franca e aberta com os jovens, para que os mesmos não caiam na sedução de usar uma primeira vez, muitas vezes apenas para fazer parte de um grupo na escola ou faculdade. Prevenção e evitar o primeiro uso, sempre serão os melhores caminhos”, aconselha Robson. 

No vale das sombras 

Você já deve ter ouvido falar na história de pessoas que tinham tudo e ficaram sem nada. O fundo do poço é a realidade de muitos que experimentaram alguma droga, talvez por diversão, uma vez em sua juventude. Como foi o caso de Mileni Scalco, mulher que entrevistei em 2018, que relatou sua experiência durante a dependência química. “O consumo de substâncias lícitas e ilícitas foi me tirando a consciência, a dignidade e a perspectiva. Por fim, perdi o convívio com meu marido, minhas filhas e minha autoestima. Eu não era mais mulher, nem mãe, nem filha, eu não era nada”, testemunhou Mileni.

Para a droga, não importa sua condição financeira, seu emocional, sua condição física. Para a droga nada importa, ela pode te derrubar a qualquer momento. Com certeza você já deve ter conhecido algum caso em seu convívio, tal como Robson relata as situações que ele próprio testemunhou no seu trabalho na comunidade.

“Posso citar como exemplo o fato de assim como temos pacientes em condição de total abandono, que já perderam tudo e estão neste momento como moradores de rua, já tivemos médicos bem formados em tratamento conosco. Isso demonstra a capacidade de dependência e destruição que a droga tem. O principal ponto é o não deixar se levar pela romantização que é possível um uso moderado, pois você pode entrar em um caminho sem volta”, argumenta Robson. 

O mercado de US$ 17 bilhões 

No Brasil e no mundo, o tráfico de drogas é um negócio extremamente lucrativo. Segundo dados do Escritório da ONU contra Drogas e Crimes, a renda anual chega a US$ 500 bilhões. Já no Brasil, o mercado ilegal movimenta US$ 17 bilhões ao ano. Em nosso país, crimes oriundos desse mercado acontecem em grande escala. 

No início do ano passado citei o triste caso de Thiago Freitas de Souza em minha coluna aqui no site da Rádio Rural. O fotógrafo carioca que foi baleado quando pediu para traficantes abaixarem o som para que seu filho pudesse dormir. Tanto os traficantes quanto os dependentes, costumam usar a violência.

No tráfico, as facções disputam entre si territórios de atuação e mercado. Enquanto isso se forma um poder paralelo no Brasil, onde temos regiões que nem as forças do Estado conseguem entrar, sendo de domínio absoluto dos traficantes. PCC, Comando Vermelho, Amigos dos Amigos, TCP, dentre inúmeras outras facções, estabelecem um clima hostil e amedrontador nas comunidades que estão estabelecidas. 

Assim como os dependentes das drogas cometem crimes para manter seu vício ou quitar suas dívidas. O efeito da droga no organismo é capaz de mudar a pessoa, como comenta Robson: “Entretanto, com o uso contínuo, o organismo vai criando mais tolerância à droga, sendo necessárias maiores quantidades ou diminuição do tempo de intervalo entre um uso e o próximo. Neste momento, podemos observar alterações progressivas no comportamento do indivíduo, podendo em alguns casos vender os móveis da casa, o que tiver de disponível de alimentos na residência e em casos mais extremos a venda do próprio filho, como no caso da notícia”. 

Legalização das drogas: sim ou não?

“Defender a legalização das Drogas é a mesma coisa que defender o sofrimento” – Robson Friedrich

Muitos defendem que, para acabar com o tráfico de drogas e a dependência química, o melhor caminho para isso é a legalização das drogas ilícitas, principalmente a maconha. Hoje, existe um grande Lobby, principalmente no meio político, que tem como o objetivo legalizar as drogas ilícitas, usando a maconha como grande protagonista. 

Robson analisa essa temática a partir de uma perspectiva que mostra o interesse do Estado neste mercado. “A liberação das drogas parte da premissa que o Estado teria condições de controlar este mercado, que hoje é altamente lucrativo para os traficantes e facções, convertendo parte em impostos. Observando a administração que o Estado faz de assuntos essenciais como Saúde, Segurança e Educação, podemos prever com toda a certeza que a liberação das drogas no Brasil seria um desastre”, disserta Robson. 

Os defensores da legalização das drogas trazem muitas vezes como argumento o exemplo de países como Canadá, Uruguai e alguns estados dos Estados Unidos que legalizaram a maconha. Porém, eles esquecem que no Brasil existe um grande mercado criminoso que vive do tráfico, assim a legalização não teria efeito nenhum sobre ele, no máximo ganhariam novos concorrentes, como explica Robson. 

“Os traficantes não iriam simplesmente sumir, pois a indústria do crime visa lucro. Logo, o Estado seria apenas mais um player neste mercado. Tornando ainda mais necessário aos traficantes, a produção de Drogas com maior potencial de dependência, para então aumentar o número de consumidores. Mais dependentes, mais lucro”.

Não é difícil entender que um traficante não irá deixar o mundo do crime caso a liberação ocorra. Ele não irá se tornar um microempreendedor individual, pagar altos tributos e empreender. Isso não vai acontecer, o tráfico não irá acabar, pois ele é um mercado cultural no Brasil. 

Prova disso é o tráfico de cigarros. O tabaco é uma droga lícita no Brasil, porém, em um levantamento realizado pelo Ibope Inteligência/Ipec em 2020 mostrou que 49% dos cigarros consumidos no Brasil são ilegais, oriundos do tráfico. Achou o número alto? Pois bem, em 2019 essa porcentagem foi maior, representando 57%. Assim, mais da metade do consumo de cigarro no Brasil era de fontes ilegais.

Finalizando o tópico, Robson faz um convite para os defensores da legalização. “Quando falamos em defender o sofrimento, gostaria de convidar os defensores da liberação das drogas para acompanharem o sofrimento dos familiares e dos usuários que não conseguem sair do ciclo vicioso do uso. Tornando-se muitas vezes “zumbis” no dia a dia das cidades, onde o único objetivo é saber qual será a alternativa mais fácil para ter acesso à sua substância de preferência”, discorre. 

Há esperança 

Há recuperação, há segunda chance, há saída. Prova disso são instituições e clínicas que se dedicam para trazer de volta o ser humano que se perdeu neste tenebroso mundo. Não importa qual seja seu problema, emocional, financeiro ou familiar, as drogas são somente uma maquiagem, uma ilusão, uma saída para a dor parar, porém essa é uma propaganda enganosa. 

Hoje, a droga é vista por muitos como um passatempo, algo recreativo e ocasional. Já existe muita tristeza oriunda do alcoolismo e do vício em tabaco, não precisamos ampliar esse leque de sofrimento e dor. Existem pessoas que usam e não desenvolvem dependência, porém há muitas que simplesmente não conseguem sair do fundo desse poço. 

“É preciso parar de romantizar a utilização das drogas como algo normal e que não traz nenhuma consequência negativa para a vida das pessoas. Pois, do outro lado da defesa ideológica pela liberação, existem milhões de usuários e seus respectivos familiares que sofrem os mais diversos transtornos causados pela dependência química”, alerta Robson Friedrich. 

Trazendo Mileni Scalco de volta para o artigo, felizmente, hoje, ela pode dizer que está “limpa” há dez anos, mais que isso, ainda ajuda pessoas que estão nessa situação e que desejam recomeçar. Você pode ler a história completa de Mileni no Facebook clicando aqui, através do texto brilhantemente escrito pela jornalista Adriana Duval. 

No final desse texto, cito uma frase da minha querida amiga, Mileni, que traduz a mensagem que precisamos passar para quem se encontra nesta situação: “Deus me deu uma nova chance para construir uma nova história”. Você também pode escrever um novo capítulo no livro da sua vida, por mais difícil que seja o caminho para que isso aconteça. Como bem disse o papa São João Paulo II: “Se Ele pede muito de você, é porque sabe que você pode Lhe dar muito”.

Foto: Polícia Civil 





SEJA O PRIMEIRO A COMENTAR




VEJA TAMBÉM

26

Mai
Lucas Villiger

Você conhece o privilégio do branco?

Não, não é uma pauta racial. Hoje vamos falar sobre uma curiosidade muito interessante da Igreja Católica. Falaremos do “Le privilège du blanc”, termo em francês que significa “O privilégio do branco”. Este direito determina que...

Leia mais

12

Mai
Lucas Villiger

​A necessária evolução da prova do Enem

As inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2022 abriram nesta semana e os estudantes de todo o Brasil já podem realizar suas inscrições com novidades nesta etapa. O valor da inscrição da edição deste ano é de R$ 85,00. Agora, os...

Leia mais

05

Mai
Lucas Villiger

​Uma nova maneira de transmitir futebol

Esqueça tudo que você já viu sobre transmissão de futebol, a Amazon Prime Video aposta em uma proposta diferenciada. O esporte está se reinventando, das transmissões somente pelo rádio, dos jogos exclusivos da TV aberta, dos pacotes de Pay Per View e...

Leia mais

28

Abr
Lucas Villiger

​Por que as crianças sofrem?

Por que as crianças sofrem? Essa pergunta foi escrita uma vez pelo filósofo russo Fiódor Dostoiévski em seu romance “Os Irmãos Karamazov” e também foi repetida tantas outras vezes na história da humanidade. Inclusive, uma criança indagou...

Leia mais

21

Abr
Lucas Villiger

A estrela mais brilhante de Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo foi cinco vezes eleito o melhor jogador do mundo e podemos afirmar com toda certeza que ele trocaria suas cinco Bolas de Ouro pela vida de seu bebê. Na segunda-feira, 18, o jogador do Manchester United comunicou a morte de um dos...

Leia mais