OPINIÃO


LUCAS VILLIGER




Isabel Veloso e a pedagogia do silêncio de Deus


Quando a dor se transforma em testemunho.

Adicionado em 15/01/2026 às 14:01:00

A morte de Isabel Veloso, aos 19 anos, após um longo tratamento contra um linfoma de Hodgkin, comoveu o Brasil e deixou um silêncio pesado — daqueles que não se explicam apenas com palavras. Influenciadora digital, esposa, mãe de um menino ainda pequeno, Isabel partiu jovem demais aos olhos humanos, mas deixou um legado espiritual que transcende números, curtidas ou estatísticas médicas. Sua história, marcada pela fragilidade do corpo, foi também um grito sereno de fé, coragem e entrega. Uma vida curta em anos, mas surpreendentemente longa em sentido.

Isabel nunca fez da própria dor um espetáculo. Pelo contrário: fez dela um altar. Em meio a internações, exames e prognósticos duros, carregava consigo a Bíblia. Em um dos momentos mais marcantes de sua trajetória, relatado no podcast Inteligência Ltda., contou que, ainda antes do diagnóstico, orava pedindo a Deus uma resposta. E ela veio — não como alívio imediato, mas como verdade: “você tem câncer”. Uma intuição que, nos dias seguintes, se confirmou nos exames. Não houve revolta. Houve silêncio interior e confiança. Uma fé madura e profundamente genuína, como toda fé que se dobra diante do mistério sem perder a esperança.

Isabel no Inteligência Ltda. - Foto: reprodução

Isabel foi cristã até o fim. E talvez por isso tenha compreendido, de modo tão precoce, algo que muitos levam uma vida inteira para aprender: Deus nem sempre fala como esperamos, mas nunca deixa de estar presente. A reflexão do frei Gilson sobre o silêncio de Deus ilumina esse caminho. No Evangelho, Jesus silencia diante do clamor de uma mãe. Não por indiferença, mas para provocar uma fé que não desiste. O silêncio de Deus não é abandono; é pedagogia divina. Isabel viveu esse silêncio. Rezou, confiou, esperou. E mesmo quando a cura física não veio, algo maior já estava acontecendo: a cura da alma, a preparação para a eternidade.

Como católicos, cremos que o sofrimento, unido ao de Cristo, nunca é inútil. A cruz não é o fim da história, mas a passagem para a ressurreição. Isabel, à sua maneira, viveu essa verdade. Teve coragem de amar, de sonhar, de casar, de gerar vida — mesmo quando tudo dizia que não seria possível. Enfrentou a doença sem desistir da vida. Não adiou a alegria esperando dias perfeitos; viveu intensamente cada instante que lhe foi dado. E nisso nos deu uma lição silenciosa, porém poderosa.

Isabel Veloso divulgou fotos de seu casamento nas redes sociais

A carta que Isabel deixou para o filho é um dos testemunhos mais comoventes de sua fé. Ali, ela afirma que não foi embora, que permanece presente, que o amor não acaba com a morte. É impossível não lembrar das palavras de São Paulo: “o amor jamais passará”. Para nós, cristãos, a morte não tem a última palavra. Como diz o Apocalipse, “não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor”. É nessa promessa que repousa nossa esperança — a mesma esperança que, cremos, agora envolve Isabel.

Isabel Veloso compartilhou uma foto amamentando seu filho  • Instagram/Isabel Veloso

O Salmo nos recorda: “Pela tarde, vem o pranto, mas pela manhã, a alegria”. Nunca sabemos quando será essa manhã. Pode demorar dias, anos ou até uma vida inteira. Mas ela chega. E chega definitiva. Isabel enfrentou muitas tardes de pranto, mas não perdeu a confiança na manhã eterna. Seu testemunho nos convida a não desanimar, a caminhar juntos, a rezar uns pelos outros, a sustentar a fé quando as respostas não vêm.

Isabel Veloso foi internada na UTI após crise respiratória  • Instagram/Joelson Veloso

Como jornalista, escrevo não para explicar o inexplicável, mas para contemplar o mistério. A vida de Isabel Veloso nos lembra que cada caminho é único, que a dor não escolhe idade, e que a santidade — ainda que vivida fora das categorias formais — pode florescer onde há fé sincera, amor e entrega. Isabel viveu pouco no tempo, mas viveu profundamente em Deus. E é isso que, no fim, permanece.

Descanse em paz, pequena sonhadora.
Que seu filho cresça envolto pela certeza de que foi infinitamente amado.
E que nós, que ficamos, aprendamos a confiar — mesmo quando Deus parece em silêncio.


Isabel Veloso
18/05/2006 - 10/01/2026



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