Isabel nunca fez da própria dor um espetáculo. Pelo contrário: fez dela um altar. Em meio a internações, exames e prognósticos duros, carregava consigo a Bíblia. Em um dos momentos mais marcantes de sua trajetória, relatado no podcast Inteligência Ltda., contou que, ainda antes do diagnóstico, orava pedindo a Deus uma resposta. E ela veio não como alívio imediato, mas como verdade: você tem câncer. Uma intuição que, nos dias seguintes, se confirmou nos exames. Não houve revolta. Houve silêncio interior e confiança. Uma fé madura e profundamente genuína, como toda fé que se dobra diante do mistério sem perder a esperança.
Isabel no Inteligência Ltda. - Foto: reprodução
Isabel foi cristã até o fim. E talvez por isso tenha compreendido, de modo tão precoce, algo que muitos levam uma vida inteira para aprender: Deus nem sempre fala como esperamos, mas nunca deixa de estar presente. A reflexão do frei Gilson sobre o silêncio de Deus ilumina esse caminho. No Evangelho, Jesus silencia diante do clamor de uma mãe. Não por indiferença, mas para provocar uma fé que não desiste. O silêncio de Deus não é abandono; é pedagogia divina. Isabel viveu esse silêncio. Rezou, confiou, esperou. E mesmo quando a cura física não veio, algo maior já estava acontecendo: a cura da alma, a preparação para a eternidade.
Como católicos, cremos que o sofrimento, unido ao de Cristo, nunca é inútil. A cruz não é o fim da história, mas a passagem para a ressurreição. Isabel, à sua maneira, viveu essa verdade. Teve coragem de amar, de sonhar, de casar, de gerar vida mesmo quando tudo dizia que não seria possível. Enfrentou a doença sem desistir da vida. Não adiou a alegria esperando dias perfeitos; viveu intensamente cada instante que lhe foi dado. E nisso nos deu uma lição silenciosa, porém poderosa.
Isabel Veloso divulgou fotos de seu casamento nas redes sociais
A carta que Isabel deixou para o filho é um dos testemunhos mais comoventes de sua fé. Ali, ela afirma que não foi embora, que permanece presente, que o amor não acaba com a morte. É impossível não lembrar das palavras de São Paulo: o amor jamais passará. Para nós, cristãos, a morte não tem a última palavra. Como diz o Apocalipse, não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor. É nessa promessa que repousa nossa esperança a mesma esperança que, cremos, agora envolve Isabel.
Isabel Veloso compartilhou uma foto amamentando seu filho Instagram/Isabel Veloso
O Salmo nos recorda: Pela tarde, vem o pranto, mas pela manhã, a alegria. Nunca sabemos quando será essa manhã. Pode demorar dias, anos ou até uma vida inteira. Mas ela chega. E chega definitiva. Isabel enfrentou muitas tardes de pranto, mas não perdeu a confiança na manhã eterna. Seu testemunho nos convida a não desanimar, a caminhar juntos, a rezar uns pelos outros, a sustentar a fé quando as respostas não vêm.
Isabel Veloso foi internada na UTI após crise respiratória Instagram/Joelson Veloso
Como jornalista, escrevo não para explicar o inexplicável, mas para contemplar o mistério. A vida de Isabel Veloso nos lembra que cada caminho é único, que a dor não escolhe idade, e que a santidade ainda que vivida fora das categorias formais pode florescer onde há fé sincera, amor e entrega. Isabel viveu pouco no tempo, mas viveu profundamente em Deus. E é isso que, no fim, permanece.
Descanse em paz, pequena sonhadora.
Que seu filho cresça envolto pela certeza de que foi infinitamente amado.
E que nós, que ficamos, aprendamos a confiar mesmo quando Deus parece em silêncio.
Isabel Veloso
18/05/2006 - 10/01/2026








