Há músicas que entretêm. Outras emocionam. E existem aquelas que carregam verdadeiras lições de vida. É o caso da canção, Bicho da Chuva, "Os Bicho-Preto", de Enio Medeiros, uma obra que vai muito além da música nativista e se transforma em um retrato da sabedoria do homem do campo, da observação da natureza e dos valores que parecem estar se perdendo com o passar do tempo.
A letra nos faz refletir sobre o quanto a sociedade moderna se afastou das suas origens.
Antigamente, o agricultor não precisava de aplicativo de celular para saber que a chuva estava chegando. Não dependia de radar meteorológico ou de previsões atualizadas a cada hora. Bastava observar os animais, o comportamento dos pássaros, a direção do vento, a formação das nuvens e os sinais que a própria natureza oferecia.
Era um conhecimento adquirido pela experiência, transmitido de pais para filhos, de avós para netos.
E, curiosamente, raramente falhava.
Os homens do campo sabiam que a chuva fazia parte da vida. Era motivo de preocupação quando demorava a chegar. Era sinônimo de fartura, de lavoura produzindo, de açudes cheios e de esperança para quem vivia da terra.
Hoje parece ser diferente.
Basta uma previsão de chuva mais intensa para começar a corrida contra o tempo. Ruas alagam, encostas deslizam, estradas são interditadas e cidades inteiras entram em estado de alerta.
Não porque a chuva tenha mudado.
Mas porque nós mudamos.
Ao longo das últimas décadas, a ocupação desordenada do solo, a impermeabilização das cidades, a destruição de áreas de preservação e a falta de planejamento urbano transformaram um fenômeno natural em um problema recorrente.
A água continua caindo do céu como sempre caiu.
A diferença é que deixamos de respeitar os limites da natureza.
A música de Enio Medeiros também faz um alerta silencioso sobre outro problema dos nossos tempos: a perda do conhecimento popular.
Quando fala dos "jovens de caderno que nunca viram uma lagoa virar vidro", ela não está criticando o estudo ou a educação. Pelo contrário.
Está lembrando que conhecimento não existe apenas dentro das salas de aula.
Existe também na experiência dos mais velhos, na observação da vida, na conversa ao redor do fogão a lenha, na roda de chimarrão e na sabedoria de quem passou décadas enfrentando secas, geadas, temporais e invernos rigorosos.
Vivemos em uma época onde sabemos cada vez mais sobre tecnologia e cada vez menos sobre o mundo ao nosso redor.
Muitos jovens conseguem operar aparelhos sofisticados, mas jamais identificaram os sinais de uma mudança de tempo no campo.
Conhecem a previsão exibida na tela, mas não conhecem a linguagem da natureza.
Talvez seja por isso que a canção emocione tanto quem nasceu e cresceu no interior.
Ela nos lembra de um tempo em que havia menos tecnologia, mas mais observação.
Menos pressa, mas mais paciência.
Menos informações, mas talvez mais sabedoria.
Os antigos entendiam que a chuva fazia parte da vida.
Não era inimiga.
Era companheira de jornada.
E talvez a maior lição deixada pela música de Enio Medeiros seja justamente esta: quando o ser humano aprende a respeitar a natureza, ela deixa de ser motivo de medo e volta a ser fonte de sustento, equilíbrio e esperança.
Porque, no fim das contas, os "bicho-preto" da coxilha talvez continuem ensinando. O problema é que, ocupados demais olhando para as telas, já não estamos prestando atenção.









