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A luta contra o peso corporal

Cirurgia bariátrica e as novas técnicas

Por Simone Vieira
02/10/2021 às 10h00 | Atualizada em 01/10/2021 - 15h14

A cirurgia bariátrica é um procedimento que reúne um conjunto de técnicas de diminuição do estômago destinada a redução de peso de pacientes com obesidade e é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. A obesidade é uma patologia crônico-degenerativa e inflamatória, que pode ocorrer em decorrência de má alimentação, fatores metabólicos, hormonais, genéticos e psicológicos, além do sedentarismo. De maneira individual ou em conjunto, esses fatores influenciam o funcionamento do balanço energético do organismo, que nada mais é do que a quantidade de calorias que você consome em relação à energia que o corpo gasta no decorrer do dia.

O paciente obeso traz limitações como baixa autoestima, vergonha do corpo,  isolamento social, comorbidades como diabetes, hipertensão, colesterol alto, doenças cardiovasculares, osteoartrose severa, doença do refluxo, doença pulmonar e/ou apneia obstrutiva do sono e esteatose hepática. 

As pessoas com sobrepeso muitas vezes experimentam discriminação, sentimento de inadequação ou insegurança em situações sociais, por receio de sofrerem rejeição e julgamento. Muitas vezes o paciente obeso tem dificuldades em realizar tarefas simples, como calçar um tênis, sentar-se ao chão, vestir roupas que gostariam, locomover-se com mais facilidade, praticar esportes, dentre outras limitações que o excesso de peso pode causar.



CIRURGIA BARIÁTRICA

Nesta semana, no Quadro Café com Especialistas do Hospital São Francisco, veiculado no Show do Cézar Luiz, da Rádio Rural entrevistamos o cirurgião do aparelho digestivo,  Dr. José Felipe Juchem. Foi introduzida recentemente no HSF, uma técnica inovadora e conforme o médico, a mais utilizada no mundo, para cirurgia bariátrica, o chamado Sleeve Gástrico.

Conforme Dr. José Felipe, no Brasil a técnica mais utilizada é o ByPass. “Para o paciente, o que muda no Sleeve, é o tempo cirúrgico, pois se consegue fazer de uma forma mais rápida e ela é um pouco menos restritiva na questão alimentar. É de fato a cirurgia de redução de estômago. Na bariátrica tradicional, o Bypass, a restrição alimentar é bem mais rigorosa”. 

A maioria dos pacientes que faz a bariátrica tem entre 30 e 40 anos. Geralmente o paciente deve ter um histórico de pelo menos 2 anos de preparação, de tentativas de emagrecimento com acompanhamento profissional. Após a cirurgia, o paciente fica 15 dias afastado de suas funções, come porções bem reduzidas várias vezes ao dia e deve ficar até 60 dias sem fazer esforço físico, além da prescrição medicamentosa. “A maior perda de peso ocorre nos primeiros 6 meses e a tendência é uma estabilidade em 2 anos do peso”, destaca Dr. José Felipe.  

68 quilos a menos! 

Quem lutou por muito tempo contra a balança sabe o que essa cirurgia representa. O Consultor de vendas,  Rodrigo Ródio (39) relata qual o sentimento vivido ao eliminar 68 quilos após a cirurgia. “Eu faria tudo de novo. Desde os meus 17 anos vinha lutando, tinha genética de sobrepeso e não conseguia manter. Tinha comportamentos alimentares totalmente fora dos padrões, baseados em fast food, refrigerantes e confraternizações familiares regados a muito carboidrato e excesso de açúcar”, destaca.



A obesidade traz problemas sérios de saúde. “Sempre fiz exames regulares e não havia alterações ate então. A partir dos meus 26 anos comecei a me preocupar porque já não consegui praticar exercícios físicos básicos sem que refletisse em alguma lesão. O futebol que sempre gostei e pratiquei desde criança já vinha se tornando cada vez mais distante”, descreve. 

Perguntamos se Rodrigo tentou emagrecer pelas vias tradicionais. “Tentei todas as dietas possíveis. Low carb, proteínas, dieta militar, clinicas estéticas, nutricionistas e afins. Todas davam excelentes resultados, porém, não conseguia manter o foco da mesma forma que iniciava e vinha o peso de volta em media 30% a mais que emagrecia”. 

Sobre o processo da tomada de decisão para fazer a cirurgia bariátrica, Rodrigo relata que desde 2010 vinha buscando informações. “Comecei ir atrás deste procedimento, porém, era um método bem invasivo e teria que ser feito em Florianópolis. Com o tempo desisti e retomei quando a referência era Lages, isso em 2014. Fiquei 4 meses fazendo acompanhamento e por decisões em conjunto com minha mãe e minha esposa, decidi que iria tentar mais uma vez no método tradicional de perda de peso. Entrei em um método de emagrecimento junto a uma clinica de estética e consegui em 30 dias eliminar aproximadamente 20 kg. Achei que havia me encontrado alí, mas não foi suficiente. Em 2018, com uma mudança de emprego, vi que necessitava uma medida drástica”, relata. 



A decisão veio por conta própria em 2018. “Fui procurar ajuda médica profissional aqui em Concórdia, avisei minha família sobre a minha decisão e comecei a fazer os exames. Da primeira consulta em 30 de outubro de 2018 até a cirurgia no dia 08 de janeiro/19 segui todos os procedimentos que me passaram, com uma dieta especifica e já ciente de como seria. Digamos que entrei no hospital as 07:00 do dia 8 e no mesmo dia as 19:00 fui pro quarto, ainda sem acreditar que tinha feito tal procedimento, porque eu estava normal a não ser os curativos que tinha no corpo”. 

Perguntamos como foi a cirurgia e este afirma que foi muito tranquilo. “Como mencionei, parecia que não tinha feito nada. A equipe do médico que eu escolhi é um espetáculo. Todo amparo e dúvidas que tínhamos eram sanadas via conversas por aplicativo. Recebi uma dieta do pós-cirúrgico e segui a risca. O principal que muitos não se dão conta que a gente opera o estômago e não a cabeça. Eu fiz o procedimento por decisão própria, não por opinião. Algumas opiniões eu nem ouvia por sinal, porque se não fosse pra somar eu não absorvia. Tirei de letra e ate me surpreendi”.

Hoje os sentimentos vividos pelo paciente são positivos.  “Resumo tudo em VIDA NOVA. A gente começa a fazer coisas que nem acredita que era capaz. Praticar esportes se tornou uma coisa tão normal que eu esperava a dor chegar e não vinha mais. Entrar em uma loja de roupas e comprar o que a gente gosta e não somente o que serve, não tem explicação. Eu como de tudo, porém em menor quantidade e bem mais devagar. Existiu alguns contratempos com o chamado Dumping, que é nada mais que uma passagem rápida de alimentos gordurosos ou com excesso de açúcares, do estômago para o intestino ocasionando alguns sintomas como desconforto abdominal, fraqueza, tremores, suor frio, vertigem e por ai vai, porém esse caso tive pouquíssimas vezes”. 



Para quem passa pela mesma situação, Rodio comenta. “VOCÊ PRECISA VIVER MAIS. Com certeza você tem um amor e é o amor de alguém. Tem pai, mãe, esposa filhos. Não faça por estética ou por bulling, faça pra mudar de vida, pra viver mais. A gente não imagina como é até estar deste lado. Você renasce a cada foto do antes e depois e vai se amando e dando mais valor ainda a vida. Escolha um profissional de saúde referência em pós-cirúrgico também, com uma equipe multidisciplinar que vai te dar todo amparo necessário indiferente de dia e horário. Converse com pessoas que são pra frente, que torcem pela sua felicidade e absorva apenas o que ira lhe beneficiar. Aquelas palavras que virão: vai ficar pelanca, tá parecendo velho, tava melhor antes, só irão vir de pessoas que nunca passaram por tudo que um obeso passa, então não são conselhos válidos e esses eu nunca fiz questão de ouvir”, relata Rodrigo.

OPERAR A MENTE 

Conversamos também com a Psicóloga Clínica com Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental; Capacitação em Transtornos Alimentares e Obesidade, Cristina Couto Tavares, que atua há 9 anos na área clínica e há 2 anos no Hospital São Camilo em Concórdia. 

Para a profissional, quando o paciente decide realizar a Cirurgia Bariátrica, é necessário que se busque um acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, uma vez que a obesidade tem causa multifatorial.  “Isso é fundamental para a obtenção de resultados previstos e positivos da cirurgia, além de todo o suporte para possíveis dificuldades que o paciente pode apresentar, o que requer uma interação e atenção do paciente junto com a equipe. Esse acompanhamento é necessário tanto no período pré-operatório quanto no pós-operatório”.

O paciente candidato a cirurgia bariátrica deverá passar por avaliações e realizar os exames solicitados, clínico, psicológico e nutricional. O acompanhamento psicoterapêutico, tem como objetivo compreender o paciente em sua individualidade, proporcionando suporte e acolhimento, além de orientar quanto as suas dúvidas e expectativas em relação a cirurgia. 

De acordo com a psicóloga, é de suma importância conhecer a história de vida do paciente, histórico familiar e social, o processo de ganho de peso, as possíveis tentativas de emagrecimento, as limitações que o excesso de peso causa e também pode-se observar se há presença de transtornos alimentares e outros transtornos psíquicos, além do estilo de vida do paciente e sua relação com o alimento e com o corpo. “É importante investigar junto ao paciente quais são seus reais motivos e expectativas para a intervenção cirúrgica, que muitas vezes estão distorcidas e fantasiosas. O profissional da psicologia também irá atuar junto a família do paciente, afinal esta também deve estar ciente das mudanças e condições a serem enfrentadas”. 

A RELAÇÃO DO SER HUMANO COM O ALIMENTO

Perguntamos a psicóloga qual a relação do ser humano com os alimentos e esta relata que este é um processo bem complexo. “Entendemos os alimentos como fonte de energia, para suprir uma necessidade fisiológica, energética e nutricional para nossa saúde e bem-estar. Historicamente, comer tem uma relação profunda com a nossa forma de ser e estar no mundo. A nossa relação com o alimento, é construída através de costumes, hábitos, questões culturais e sociais. Alimentar-se também abrange necessidades afetivas que utilizam a comida como fonte de prazer, compensação ou punição”. 

A psicóloga traz o conceito do chamado confort food. “Quando falamos em confort food, estamos nos referindo a aquele alimento que nos remete a lembranças do passado, que nos proporciona uma memória afetiva. Assim, o alimento pode representar outros papéis que vão além da nutrição. Podemos dizer então, que o alimento é um ótimo condutor de afeto. Portanto, o ato de comer não se limita somente à função nutritiva, e sim há processos afetivos e socioculturais”.

Existe a chamada fome fisiológica e a fome emocional: 

1) A fome fisiológica é uma sensação física, que nos motiva a alimentarmos assim que possível,   mas não nos obriga a comer de imediato, surge gradualmente e quando saciado, não sente mais a necessidade de se alimentar.

2) A fome emocional aparece com a presença de alguma emoção, como ansiedade, preocupação, tristeza, entre outras, ou seja, quando a comida é utilizada para lidar com questões emocionais. Há uma necessidade urgente, não é possível esperar pela refeição, também existe a escolha de um alimento específico, geralmente doces e alimentos calóricos, e não para de comer, mesmo que saciado. Na fome emocional, o alimento passa a ser considerado uma válvula de escape, busca no alimento uma sensação de saciedade e prazer na esperança de aliviar tal angústia. 

O profissional da psicologia irá ajudar o paciente a compreender os gatilhos emocionais que contribuem para seus hábitos alimentares, assim como irá auxilia-lo a identificar e gerenciar suas emoções, contribuindo para uma relação mais equilibrada e prazerosa com a comida.



FERRAMENTAS INTERNAS PARA ENFRENTAR A CIRURGIA

 Para enfrentar uma cirurgia como essa, para Cristina é preciso estar preparado. “No período pré-operatório, podemos identificar junto com paciente quais são suas expectativas em relação a cirurgia e a sua nova imagem corporal. É importante que o paciente esteja ciente do seu comprometimento e responsabilidade frente as mudanças que a cirurgia irá exigir.  O paciente obeso deve estar consciente que para perder e manter o peso alcançado com a cirurgia, são necessárias mudanças tanto na alimentação, quanto no seu estilo de vida”.

A psicologia relata que habilidades sociais também precisam ser trabalhadas, como respeitar seus limites, aprender a dizer não, buscar novos prazeres além do ato de se alimentar. O paciente obeso precisa estar disposto a mudanças no seu dia a dia e a forma de se relacionar com o alimento.

No período pós-operatório, é importante o paciente perceber e reconhecer as mudanças físicas, além das novas condições frente as limitações que o excesso de peso lhe causava. “É necessário continuar o acompanhamento com toda equipe multidisciplinar no pós-operatório, afim de prevenir e auxiliar o paciente frente a possíveis dificuldades de adaptação”. 

A profissional relata que é necessário pensar que a obesidade não tem cura, portanto o cuidado é para a vida, afim de manter os resultados positivos alcançados e desfrutar das novas condições e da qualidade de vida esperada.


Imagens: Todas as imagens foram publicadas com autorização do paciente. 
Foto: Imagem de Tania Dimas por Pixabay 
Foto: Imagem de brunamereu por Pixabay 





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