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Especial

Trabalhadores estrangeiros no comércio de Concórdia


Sonhos, metas, novas oportunidades na vida

Por Simone Vieira
03/04/2022 às 07h34 | Atualizada em 03/04/2022 - 16h01
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Você teria coragem de deixar o Brasil e ir em busca de uma nova vida, um novo emprego, uma nova casa, um lugar onde praticamente ninguém entende a sua língua? 

Pois muitas pessoas não tiveram escolha a não ser deixar suas famílias, suas casas, sua vida, seus amigos, seu país, para não passar fome, não ver seus filhos tendo o mesmo destino que o seu. 

Você já foi atendido por um trabalhador estrangeiro em Concórdia? Essa cena está cada vez mais comum. E nossa reportagem procurou ouvir alguns deles no comércio local. 

Podemos observar trabalhadores venezuelanos, chilenos, haitianos, colombianos empregados em supermercados, lanchonetes, entre outros locais. Nesta semana conversamos com os atendentes do Bob´s no Calçadão. 

O empresário Adriano Pasetto conta que já empregou trabalhadores de diversas nacionalidades. “Nossa experiência foi sempre positiva. Atualmente temos três funcionários venezuelanos e outros dois já trabalharam conosco anteriormente. Todos têm um exemplar comportamento profissional em todos os aspectos.  São pessoas que se adaptam facilmente a equipe. Todos nós na equipe gostamos muito de dividir o ambiente de trabalho com eles, são realmente pessoas muito extrovertidas, educadas e competentes, que rapidamente superam a barreira inicial da língua portuguesa. São pessoas boas, com ótimo espírito. Sempre felizes e valorizam muito a oportunidade que receberam”, destaca. 

Em busca de um sonho 

Os venezuelanos Axel Leonardo Duarte (29) e  Annggely Gabriella Candelas Fernandez (24), trabalham como atendentes. 

Annggely nasceu em Mérida, veio para o Brasil há dois anos, com o marido e a filha de apenas 4 anos. Ela conta que estava no segundo ano do curso de Medicina. “Meu sonho é um dia conseguir acabar meu curso de Medicina. Meu marido trabalha  na fábrica da Santa Terezinha e minha filha vai para o Cmei”. 

Axel nasceu em Bolívar e é formado em Engenharia Elétrica. “Deixei tudo para traz em busca de uma vida melhor. Minha namorada não quis vir comigo”. 

A venezuelana conta porque deixou seu país. “Somos membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e o senhor Carlos Martins tinha um programa que ajudava estrangeiros. Eles trouxeram a gente pra cá e deram o aluguel por três meses. Falaram que em Concórdia era um lugar com muito trabalho, uma cidade melhor pra morar e criar nossa filha e aqui é maravilhoso mesmo. Nós não tínhamos outra saída. Em nosso país não tinha infraestrutura, água, luz, internet, nós pagávamos aluguel, não tinha as coisas básicas, não sobrava nada, nem pra comprar uma roupa. Aqui a vida é muito melhor. Temos trabalho, temos as coisas básicas”. 

Nossa entrevistada conta que os vizinhos no Bairro Cinquentenário foram muito solícitos. “As pessoas são muito hospitaleiras aqui, sou muito grata. Nossa, nos deram muita coisa e nem nos conheciam. Aqui nós podemos pagar aluguel, comprar roupas, temos uma vida muito melhor, temos nossas metas”, diz a atendente que também já trabalhou na empresa BRF. 

O gerente do Bob´s, Cristian Hoffmann, conta como foi a experiência da contratação dos estrangeiros. “Apesar da barreira da língua, eles são muito esforçados. São muito bons trabalhadores. São sempre atenciosos, do bem. Para melhorar sua comunicação, fazem curso de língua portuguesa para estrangeiros duas vezes por semana no CEJA. Temos 3 venezuelanos, já tivemos 01 colombiano e 01 chilena trabalhando aqui”. 

O engenheiro elétrico, Axel conta que veio sozinho para o Brasil. “Meus pais já estão idosos, pra eles é muito difícil conseguir um emprego aqui. Mas, eu queria um futuro diferente pra mim. Minha namorada não quis vir, eu vim sozinho. Apesar de não conseguir validar meu diploma aqui ainda, por ser muito burocrático e de alto custo, aqui eu posso sonhar em ter minha casa, minhas coisas. Lá não existe você comprar um celular em 11 vezes, ou você compra um celular ou você come”. 

Ambos os trabalhadores relatam a questão da insegurança em todos os sentidos na Venezuela. “Aqui você pode sair com seu celular na mão. Lá na Venezuela jamais. E a Justiça é pior que os criminosos. Aqui é tudo melhor. Vim sozinho para Concórdia, mas já tenho familiares que ficaram morando em Manaus. Aqui tem muito mais emprego. Eu quis tentar pra um dia não me arrepender e estou muito feliz”. 

Annggely e Axel relatam que sonham com um futuro melhor. “Aqui podemos fazer nossa vida mais ligeiro. Tivemos pelo menos 90% de boas experiências. As comidas aqui são muito boas, o churrasco, a coxinha, o pão de alho, o pão de queijo. A única coisa que sentimos saudades da Venezuela é de nossa família. Agora queremos terminar nossos estudos e melhorar nossa comunicação”. 

Dificuldades para obtenção dos documentos 

Os trabalhadores estrangeiros relataram haver muita dificuldade para obtenção de seus documentos junto a Polícia Federal em Chapecó. "Eles dizem que estão em pouca gente e 8:00 abre agendamento, 08:01 já não tem mais vaga", relatam. Mesmo não precisando de um Visto, esses trabalhadores precisam de documentação para permanecer no país. 

A emissão de documentação para refugiados e migrantes (Protocolo de Abrigo e Residência Provisória) só pode ser realizada pela Polícia Federal e diretamente na unidade da Polícia Federal. O imigrante em situação de vulnerabilidade decorrente de fluxo migratório provocado por crise humanitária passará por regularização e a capacidade atual da Polícia Federal é limitada, portanto o processo de marcação de consultas para atendimento pode levar algum tempo.

Conforme informações do site G1, desde 2019, o governo brasileiro reconhece a Venezuela como país em grave e generalizada violação de direitos humanos. Para obter a residência temporária, primeiro os imigrantes fazem uma solicitação formal à Polícia Federal. Quando deferida, a autorização tem validade por dois anos. Depois disso, se não tiver registros criminais no Brasil e se o estrangeiro comprovar meios de se manter no país, ele pode solicitar a residência definitiva.

Conforme dados da ONU, nos últimos cinco anos, o Brasil registrou a entrada de mais de 700 mil venezuelanos, segundo levantamento do informativo mensal do Subcomitê Federal para Recepção, Identificação e Triagem dos Imigrantes. Dentre eles, 325.763 permanecem em território nacional enquanto 376.459 passaram pelo país e, em seguida, seguiram outras rotas. Os números são produzidos pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, Receita Federal, Polícia Federal, e consolidados pela Agência da ONU para as Migrações (OIM).

Quanto aos venezuelanos que residem oficialmente no Brasil, 112.260 são titulares de autorização de residência temporária, válida por dois anos; e 72.334 já possuem autorização de residência por prazo indeterminado.

Os refugiados reconhecidos somam 51.538. Atualmente, estão em tramitação 93.997 pedidos de refúgio, a ser analisado pelo Conselho Nacional de Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O balanço também mostra que, em cinco anos, foram emitidos 378.567 CPFs a nacionais venezuelanos, o que garante o acesso a programas assistenciais, trabalho, além de apoio dos órgãos governamentais e entidades parceiras da sociedade civil.   


Fonte: G1, https://brasil.un.org/pt-br/176575-oim-apoia-justica-na-divulgacao-de-dados-da-migracao-venezuelana 
Reportagem especial com a colaboração de Sergio Primam e André Marques. 




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