Local onde está enterrado José Fabrício das Neves, no meio da mata às margens do Rio Irani - Foto: Produção do Programa Show do Cezar LuizDas revoluções gaúchas ao Contestado
Natural da região de Passo Fundo (RS), José Fabrício das Neves envolveu-se desde cedo em movimentos armados. Segundo o historiador Antenor Geraldo Zanetti Ferreira, ele tinha apenas 13 anos quando lutou ao lado do pai nas Revoluções Federalistas de 1893 e 1895, comandadas por Gumercindo Saraiva.
Mais tarde, seu nome ganharia destaque durante a Guerra do Contestado (1912–1916), conflito que envolveu posseiros, caboclos e tropas estaduais em disputas por terras no Sul do Brasil. Fabrício integrou o grupo do monge João Maria, e há registros históricos de que participou da Batalha do Irani, em 1912 — confronto em que morreu o comandante paranaense João Gualberto Gomes de Sá Filho.
Perseguido após a guerra, Fabrício refugiou-se com seus seguidores às margens do Rio dos Queimados, região que mais tarde se tornaria o núcleo de Concórdia. Foi ali que consolidou sua fama de líder carismático, corajoso e temido, protetor dos caboclos e pequenos posseiros.
Liderança cabocla e resistência à colonização
Durante os anos seguintes, José Fabrício tornou-se a principal liderança entre os moradores locais, exercendo influência sobre todo o território dos Queimados. Conforme registros do livro de Ferreira, sua palavra tinha peso de lei entre os caboclos — um líder que impunha respeito tanto pela força quanto pela justiça nas decisões.
Com o avanço da colonização promovida pela Brazil Development and Colonization Company, subsidiária da Brazil Railway, a presença de Fabrício representava um desafio para as companhias colonizadoras, que buscavam regularizar as terras e atrair imigrantes do Sul.
A relação entre Fabrício e o representante da empresa, Victor Korutz, é citada em diferentes fontes como um marco decisivo. Segundo relatos preservados pela tradição oral e mencionados por Ferreira, Korutz teria se encontrado com Fabrício na antiga Estação de Barro, hoje Gaurama (RS). O acordo entre ambos teria garantido terras aos moradores locais e permitido o avanço da colonização sem conflito direto.
É desse entendimento que, segundo a tradição, teria nascido o nome “Concórdia”, simbolizando a paz firmada entre os interesses da colonizadora e os caboclos liderados por José Fabrício. Embora algumas versões contestem essa origem, afirmando que o nome foi apenas uma escolha administrativa, o simbolismo do termo permanece profundamente ligado à ideia de harmonia entre povos e histórias.
Entre o mito e a história
A vida de Fabrício também é marcada por elementos lendários. Morava em diferentes pontos da mata, mantendo abrigos e informantes. Era visto como protetor dos mais humildes, mas também há relatos — de caráter oral — que o descrevem como um homem implacável com inimigos.
Uma das lendas mais conhecidas afirma que ordenava que os corpos dos adversários fossem queimados e lançados ao Rio dos Queimados, o que teria inspirado o nome do local. Esses relatos, embora sem comprovação documental, ajudam a entender como a figura de José Fabrício se tornou parte do imaginário popular da região.
Comunicador Cezar Luiz esteve no local onde foi enterrado o corpo de José Frabrício das Neves - FOTO: Produção do ProgramaA emboscada e o fim de uma era
Após a guerra e os acordos de colonização, Fabrício ainda teve papel ativo nas disputas locais. Em 1924, durante a Revolução Paulista, formou uma tropa para apoiar o movimento, ao lado de outro líder regional: Marcelino Ruas, seu compadre.
O que parecia uma aliança terminou em tragédia. Conforme documentos do inquérito policial aberto em 1925 no Irani, citados por Ferreira, José Fabrício das Neves foi vítima de uma emboscada comandada por Ruas e seus homens. A execução ocorreu nas margens do Rio Irani, encerrando a trajetória do líder caboclo que havia desafiado coronéis, tropas e companhias colonizadoras.
Parte dos detalhes sobre a sua morte — como a versão de que teria sido estrangulado com uma corda e enterrado em local escondido — é atribuída à tradição oral. Mesmo assim, o local do sepultamento, em área de difícil acesso às margens do rio, ainda é lembrado por moradores e historiadores da região.
Comunicador Cezar Luiz esteve no local onde foi enterrado o corpo de José Frabrício das Neves - FOTO: Produção do ProgramaMemória resgatada
Mais de um século depois, a Rádio Rural resgatou essa história em uma série de reportagens emocionantes. O apresentador Cezar Luiz destacou, durante o programa, a importância de revisitar o passado para compreender o presente:
“Foram horas de caminhada pela mata até chegar ao ponto onde, segundo os antigos, repousam os restos de José Fabrício das Neves. Um lugar simbólico, que guarda não apenas a história de um homem, mas de todo um povo que lutou por dignidade e por um pedaço de terra.”
A trajetória de José Fabrício das Neves mistura fato e lenda, história e memória popular, mas permanece viva como símbolo da resistência cabocla e da formação de Concórdia.
Entre armas, fé e acordos, o homem que viveu nas matas do Irani ajudou a dar origem a uma cidade que, em seu próprio nome, carrega o espírito da conciliação: Concórdia — nascida de uma história de luta e de um desejo de paz.
Grupo que auxilou o programa da Rádio Rural a resgatar a hisória do caboclo que ajudou a marcar o nascimento e o nome de "Concórdia" - FOTO: Produção do Programa, Show do Cezar LuizOUÇA TAMBÉM A TRAJETÓRIA COMPLETA RESGATA PELO PROGRAMA NO ÁUDIO ABAIXO














