NOTÍCIAS



Especial

LABORATÓRIO DO CRIME


A violência foi organizada, o crime foi pensado. A idade não apaga a intenção.

Por Ederson Vilas Boas
07/02/2026 às 00h11 | Atualizada em 07/02/2026 - 00h13
Compartilhar


Pois meu amigo leitor, ainda repercute fortemente o fato recente das agressões aos cães Orelha e Caramelo na Praia Brava em Florianópolis e que não é apenas um crime contra animais — é um retrato brutal de uma sociedade em decomposição moral. Jovens, de forma premeditada, arquitetaram uma armadilha para torturar e agredir violentamente dois cães conhecidos, queridos e cuidados pela comunidade. Mas o ponto central não é a popularidade dos animais, a barbárie não se relativiza pelo afeto coletivo e sim pelo fato de que não se faz isso com nenhum ser vivo. O que foi cometido ali é crueldade em estado puro, sem atenuantes, sem desculpas emocionais, sem espaço para romantização juvenil.

O elemento mais perturbador não é apenas a violência, mas o planejamento da maldade. Não foi impulso, não foi acidente, não foi brincadeira que saiu do controle. Houve trama, intenção e execução. Isso nos obriga a fazer perguntas que muitos evitam: o que leva adolescentes a planejarem atos de tortura? De onde vem essa frieza? Que referências foram absorvidas? Que valores foram ausentes? Quando jovens são capazes de planejar a dor, executar o sofrimento e assistir à agonia de um ser indefeso, o problema ultrapassa o ato em si e aponta para uma falência mais profunda.

E, como se não bastasse, entra em cena o velho escudo da irresponsabilidade institucionalizada. Uma vez confirmada a autoria, a lei garante sigilo absoluto aos menores, protegendo identidades como se isso fosse sinônimo de justiça. Protege-se o agressor, silencia-se a sociedade e enterra-se o debate. O recado é perverso, onde o sistema é rápido para ocultar nomes, mas lento — ou inexistente — para discutir consequências, responsabilização real e prevenção. A lei, do jeito que é aplicada, não educa, não corrige e tampouco intimida.

Esse caso apenas ganhou visibilidade porque a violência veio à tona. Foi algo assim como a bola da vez, mas quantos outros episódios semelhantes ficam velados, escondidos dentro de casas, grupos fechados, praias vazias, becos e telas de celular? O que esperar desses jovens no futuro, se hoje já demonstram prazer ou indiferença diante do sofrimento extremo? O episódio escancara a falência da educação, da família que terceiriza valores, da escola que repassa conteúdo mas não cobra comportamento e de uma sociedade que normaliza a brutalidade enquanto se indigna apenas quando o horror vira manchete. 

O problema não são os dois cães, o problema é o que está vivo e apodrecendo nas derrocadas da evolução humana enquanto sociedade com razão lúcida, com juízo para o bem viver comum. No direito penal, a lógica é simples e objetiva: uma coisa é cometer um crime e ser classificado como criminoso; outra, bem diferente, é se reunir, planejar e executar crimes de forma articulada — isso caracteriza organização criminosa. O que causa espanto é a tentativa de relativizar esse conceito quando os autores são menores. E aí? A violência foi organizada e o crime foi pensado. A idade não apaga a intenção, apenas expõe a falência moral de quem insiste em fingir que não vê.

LAERCIO GRIGOLLO
CONSULTORIA EMPRESARIAL




SEJA O PRIMEIRO A COMENTAR




VEJA TAMBÉM