NOTÍCIAS



Especial

PRÊMIO AO CALOTE


O bom pagador virou o otário do sistema...

Por Rafael Martini
11/04/2026 às 05h00
Compartilhar


Pois meu amigo leitor! Enquanto uma parte dos brasileiros acorda cedo e trabalha duro, honrando com seus compromissos de saldar suas dívidas, outra parte vive uma  boa e tranquila vida de dependência. O programa Desenrola Brasil foi vendido como solução mágica para o sufoco financeiro de milhões de brasileiros. Na prática, significou 1,7 bilhão de reais em garantias da União para aliviar dívidas que, em grande parte, nasceram de um ambiente de crédito fácil e desorganizado e enquanto o governo comemorava mais uma ação populista, os indicadores de endividamento seguiam em alta, impulsionados por juros elevados e pelo estímulo contínuo ao consumo financiado. É como enxugar gelo com dinheiro público — muito esforço, pouco resultado estrutural.

No meio desse cenário, cresceu um novo vilão conveniente, as apostas esportivas online. Sem dúvida, elas contribuem para o descontrole financeiro de muitas famílias, mas tratá-las como uma causa central do problema é confortável demais, é ignorar o óbvio, de que o brasileiro foi empurrado para um ecossistema onde crédito é fácil, educação financeira é escassa e a ilusão de ganho rápido, seja no cartão, no consignado ou nas apostas, virou regra. O resultado é previsível: mais dívida, mais inadimplência e mais dependência de programas governamentais.

Agora surge a promessa de um novo plano, novamente com garantias da União, possivelmente financiado até com recursos de dinheiro esquecido no sistema financeiro. Traduzindo, recicla-se a mesma lógica, com nova embalagem. Socializa-se o prejuízo enquanto se preserva o comportamento que gerou o problema. É o populismo financeiro em sua forma mais pura — resolve-se o efeito imediato, ignora-se a causa estrutural e, de quebra, usa-se dinheiro que não pertence diretamente ao governo para sustentar a narrativa de solução.

Mas, e daí! Daí fica aquela pergunta incômoda de qual é o incentivo para quem paga em dia? Porque convenhamos, favorecer o mau pagador com descontos de 80% a 90% nas dívidas criam um prêmio perverso à inadimplência e punem silenciosamente o bom pagador. Em vez de insistir em programas paliativos, talvez fosse mais eficaz investir pesado em educação financeira, restringir o crédito irresponsável e estabelecer regras que valorizem a disciplina. Mas isso exige enfrentamento, é impopular e cria independência — três coisas que raramente rendem manchetes tão atraentes quanto um perdão bilionário de dívidas.

O recado é claro e um incentivo perverso, onde vale mais a pena ficar devendo do que honrar com compromissos de dívidas. Depois ninguém entende por que o país não anda.




SEJA O PRIMEIRO A COMENTAR




VEJA TAMBÉM