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EM TROCA DE QUE?


Milhões de reais para financiar um filme, outros milhões para pagar uma consultoria...

Por Rafael Martini
23/05/2026 às 05h00 | Atualizada em 23/05/2026 - 12h54
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Pois veja meu amigo leitor que quando um escândalo explode, a primeira reação da República tropical é sempre a mesma: cara de espanto, notas oficiais indignadas e aquele teatro cívico de quem jamais imaginou. Aí surgem os nomes, os encontros, os contratos, as consultorias nebulosas, os filmes milionários que ninguém viu, os relatórios que ninguém leu e os pagamentos que ninguém consegue explicar. Mas o mais curioso é que o dinheiro sempre encontra trânsito livre entre todos os espectros ideológicos. Direita, esquerda, centro, independentes de ocasião, empresários patrióticos, instituições respeitáveis… todos parecem ter dividido o mesmo cafezinho moral no balcão da conveniência. Afinal, quando o cofre abre, as divergências ideológicas milagrosamente entram em recesso.

O enredo é tão absurdo que parece roteiro recusado por plataformas de streaming por excesso de falta de credibilidade. Milhões de reais destinados a um filme invisível, outros milhões para uma consultoria cuja utilidade parece tão concreta quanto fumaça em dia de vento. E, espalhados pelo caminho, repasses e agrados generosos para uma multidão de políticos, empresários e entidades. Daí, naturalmente surge a pergunta inconveniente, aquela que quase nunca ganha destaque nas coletivas cuidadosamente roteirizadas: em troca de quê? Porque dinheiro dessa magnitude não costuma circular movido por solidariedade cristã ou paixão pela arte experimental. Em algum lugar existia uma porta aberta, uma assinatura facilitada, um silêncio conveniente ou uma blindagem estratégica. A contrapartida talvez não estivesse no papel, mas estava perfeitamente compreendida entre os envolvidos.

Enquanto isso, centenas de aposentados seguem colecionando prejuízos, descontos indevidos, fraudes e humilhações burocráticas. Gente que trabalhou a vida inteira para descobrir, na reta final da existência, que virou matéria-prima para um esquema fraudulento bilionário. E o Estado? O Estado investiga lentamente, devagar, com extrema cautela. Uma delicadeza quase poética. Porque no Brasil certas investigações parecem atravessar um labirinto onde cada porta leva a outra comissão, outro pedido de vista, outro relatório preliminar e mais alguns anos de sono institucional. Para pequenos delitos, velocidade supersônica. Para esquemas monumentais envolvendo gente influente, o relógio da Justiça passa a funcionar na base do calendário maia.

E talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro escândalo. Não apenas nas cifras obscenas ou nas relações promíscuas entre poder econômico e político, mas na sensação coletiva de que ninguém mais acredita em surpresa. O cidadão comum já olha para esses casos como quem assiste à reprise de uma novela antiga, muda o elenco, muda o partido, muda o discurso moralista da campanha, mas o roteiro continua rigorosamente igual. E no fim, entre discursos inflamados, CPIs performáticas e notas de repúdio escritas por assessorias milionárias, sobra para o aposentado a conta, para o contribuinte o prejuízo e para o sistema a velha pergunta que insiste em ecoar sem resposta: em troca de quê?


Fonte: LAERCIO GRIGOLLO - CONSULTORIA EMPRESARIAL




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