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Horácio Sandi: Nove anos do incidente que deixou 18 famílias desalojadas


Moradores ainda aguardam decisão da Justiça e a indenização que cada família receberá.

Por Redação
01/06/2026 às 05h00 | Atualizada em 01/06/2026 - 13h46
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Os dias 31 de maio e 1º de junho são datas que não sairão da cabeça de diversas famílias de Concórdia, mais precisamente da Rua Horácio Sandi, no Parque de Exposições. Há exatos nove anos, a tristeza, o choro, tomou conta de uma rua familiar. Aquela quarta-feira, apesar de chuvosa, parecia igual a tantos outros dias da semana. Mas no final daquela tarde, após às 17h, depois de análises durante o dia, Bombeiros Voluntários, Defesa Civil e Polícia Militar iniciaram uma movimentação no local, que muitos, a princípio, não entenderam.

Naquele momento a vida das pessoas, da tranquila rua, literalmente desmoronou, assim como o barranco, que ligava a Horácio Sandi da Rua Victor Sopelsa, viria a ceder nas horas sequentes.

Naquele momento, após o pedido das equipes de segurança, as 18 famílias, que residiam há anos no local, tiveram de deixar suas residências, de maneira repentina, breve e de forma traumática: sem tempo, com risco e também aterrorizados pelo medo que uma tragédia pudesse acontecer e o barranco, que por muitos anos foi a visão da janela de todos, viesse a ferir ou até matar alguém.

Foram momentos de agonia para 40 pessoas que rapidamente tiraram alguns pertences pessoais e os animais de estimação e deixaram os imóveis. 

Todos retornaram ainda no dia 1º de junho, com a esperança de que aquele susto do dia anterior não passasse de um problema momentâneo e, logo estariam dentro de casa novamente. Mas estavam enganados e logo o desespero, o choro se tornaram frequentes, pois a história de uma vida inteira, estava se encerrando ali. 

A via toda foi isolada sem permissão de entrada. Mesmo assim, alguns, nos dias subsequentes,  ainda retornaram, por vezes, na entrada da rua, onde era possível ficar, para ver como estava a situação. Enquanto outros não quiseram mais, nem mesmo, chegar perto do local, pelo trauma que ainda faz parte dos seus dias.

Foram tentativas de negociações por parte dos advogados das famílias, com a administração municipal e os proprietários do terreno na parte alta do barranco, onde ficou comprovado, após análises de geólogos, que deficiências no sistema de drenagem e a formação de um aterro com diversos materiais, não compactados de forma correta, foi a principal causa do incidente.

A partir de uma decisão judicial, cujo trabalho para a produção de provas foi realizado pelos promotores de justiça de Concórdia, os moradores começaram a receber um aluguel social, pagos em partes iguais pela administração municipal e os proprietários do terreno que deslizou. Com o passar dos anos e o andar jurídico, tanto município, quanto os empresários foram responsabilizados pelo incidente.

Mas e nesses nove anos como está a situação destes moradores? 

Conversamos com Elizandro Tavares, um dos moradores da Rua Horácio Sandi. Elizandro residia em uma das últimas moradias da via, com a esposa e o filho, ao lado da casa da mãe. Ele lamenta pela falta de uma decisão e de não ter a casa própria para morar e seguir a vida normal.

"É a situação nossa e que não teve nenhum desfecho. Nós moradores, estamos aguardando uma decisão judicial que seja favorável. O proprietário do terreno não tem interesse em acordo e a situação nossa é essa. A gente com esperança de conseguir ter o nosso dinheiro, recolocar as nossas casas, seguir com as nossas vidas e ter um alento, né? E a situação é bem difícil hoje, pessoas ainda com depressão desde aquela época, pessoas mais idosas começam a lembrar e começam a chorar. E nove anos esperando, sabemos que a justiça é morosa, mas a gente acredita. Em resumo a situação nossa é essa, continua a mesma coisa e sem uma posição definitiva para nós", lamenta o morador.

Mas e a questão jurídica?

Em 2025, a sentença de uma Ação Civil Pública, instaurada pelo Ministério Público de Santa Catarina, reconheceu a responsabilidade dos empresários pelo deslizamento, em parte, por uma sentença penal já transitada em julgado. Foram responsabilizados objetivamente pelo dano ambiental, tanto por ações (realização de aterro irregular) quanto por omissões (não impedir o despejo irregular de materiais em sua propriedade).

Em relação ao município de Concórdia, a responsabilidade foi subjetiva, decorrente da omissão na fiscalização do aterro irregular, da deficiência da rede pluvial e da falta de manutenção das bocas de lobo e valetas.

A Ação Civil deixa claro que o Município também contribuiu ativamente para o dano ao realizar despejo irregular de materiais. Com isso, a responsabilidade entre os réus foi estabelecida como solidária, na proporção de 50% para os proprietários e 50% para o Município de Concórdia. A decisão ainda previa a indenização individual por danos morais no valor de R$ 30 mil a cada proprietário ou morador presente na época do deslizamento; Dano moral coletivo de R$ 200 mil, a ser revertido para um fundo destinado a ações em benefício da coletividade e reparação de danos ambientais e estabilização da área atingida.

A advogada, Norah Pezzzin, que acompanhou os moradores desde o primeiro dia dos fatos, lamenta que ainda não se tenha tido uma solução. 

"É uma triste lembrança que está completando nove anos. Uma tragédia que marcou a história de Concórdia e mudou para sempre a vida das famílias atingidas, que perderam não apenas suas casas, seus bens, mas principalmente a tranquilidade e a segurança do próprio lar. Os moradores até hoje convivem com as consequências daquele episódio. Passaram-se nove anos e a busca por justiça continua. O processo judicial que busca a reparação dos danos já foi julgado em primeira instância com reconhecimento da responsabilidade dos envolvidos, mas as vítimas dessa tragédia ainda não foram efetivamente indenizadas".

Norah Pezzin explica que atualmente o processo não está mais na Comarca de Concórdia, mas aguardando o julgamento dos recursos de apelação. 

"Atualmente o processo não está mais sendo conduzido na comarca de Concórdia, está no Tribunal de Justiça de Santa Catarina aguardando julgamento dos recursos de apelação. O direito de recorrer sabemos é legítimo e deve ser respeitado, mas também é necessário lembrar que a cada novo capítulo dessa longa disputa judicial, famílias inteiras permanecem aguardando uma reparação de suas perdas. O que os atingidos aguardam agora é que a justiça conclua esse processo e que o direito já reconhecido em sentença se converta finalmente em uma reparação efetiva, porque a demora na reparação se transformou em mais uma injustiça para eles, que vêm suportando tantas perdas", explanou. 

Por fim, a advogada ressalta que tudo o que está em discussão neste momento não é apenas a questão financeira, mas a reparação de histórias que foram interrompidas com o incidente.

"Não é apenas sobre números e indenização, o que está em discussão são histórias de vida, patrimônios construídos ao longo de anos de trabalho, sonhos interrompidos e a dignidade de famílias que tiveram suas vidas profundamente impactadas por essa tragédia", finalizou.

Por muito tempo as residências foram invadidas por moradores de rua, que danificaram as moradias, muitas delas sendo incendiadas e depredadas.Devido ao risco que se criou no local, em janeiro deste ano a Defesa Civil de Concórdia, com autorização da Justiça, fez a demolição das moradias que sobraram e limpeza do terreno.

Acompanhe imagens dos dias 31 de maio e 1º de junho de 2017 e mais imagens tiradas nos anos seguintes com as casas abandonadas.








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