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O SISTEMA QUE MEXEU COM O TABULEIRO


Bilhões de transações, trilhões movimentados e uma tecnologia brasileira que incomodou quem ganhava.

Por Rafael Martini
22/08/2026 às 05h00 | Atualizada em 22/08/2026 - 08h12
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Como o amigo leitor sabe, o Pix deixou de ser apenas uma ferramenta de transferência de dinheiro e se transformou em uma ampla infraestrutura financeira do Brasil. Em 2025, foram quase 80 bilhões de transações, movimentando mais de 35 trilhões de reais. Ao final do período, 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas já haviam realizado ou recebido ao menos uma transação pelo sistema. É difícil encontrar outro serviço público que tenha conseguido tamanha adesão em tão pouco tempo.

Talvez seja justamente esse sucesso que explique por que o Pix passou a incomodar tanta gente.  A população reduziu drasticamente a dependência das tradicionais redes de cartões e dos intermediários financeiros. Para o cidadão, uma transferência entre pessoas físicas é gratuita; para as empresas, o custo é muito menor do que em outras modalidades tradicionais de pagamento. Por tal magnitude, amigo leitor, vêm os questionamentos norte-americanos, tratando o Pix como uma barreira à competitividade de consagradas empresas americanas de pagamentos, justamente porque um sistema público, instantâneo e de baixo custo mexe com um mercado dominado mundialmente por bandeiras de grandes redes privadas.

Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante — e essa não vem de Washington: até quando o Pix continuará sendo, de fato, uma ferramenta comercialmente isenta para o usuário? Porque essa invejável quantidade de movimentações financeiras proporcionada pelo Pix poderia, em algum momento, servir de base para ampliar mecanismos de cobrança de tributos. E aqui mora a preocupação: uma coisa é utilizar os dados das transações, dentro das regras legais, para fiscalização tributária; outra, completamente diferente, seria transformar cada movimento financeiro em uma oportunidade de multiplicar a tributação. O risco é que aquilo que nasceu para simplificar a vida do cidadão termine se transformando em mais um sofisticado instrumento de arrecadação de taxas e impostos.

O Pix nasceu como inovação, ganhou escala, democratizou pagamentos e obrigou um mercado inteiro a reduzir custos e mudar hábitos. E talvez justamente por isso seja preciso protegê-lo de dois extremos: da pressão de interesses privados que perderam espaço e da tentação do próprio Estado de enxergar nele uma nova fonte inesgotável de receita. Porque se um dia cada Pix começar a carregar, além do dinheiro, uma pequena mordida tributária, teremos de reconhecer uma ironia extraordinária: o sistema criado para tornar o dinheiro mais livre pode acabar se tornando a maneira mais eficiente de o governo saber onde ele está. E aí a pergunta não é se o Pix continuará existindo. É: até quando ele continuará sendo isento da insaciável fome do governo em arrecadar mais impostos?




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